sábado, 19 de abril de 2014

JOÃO PALMA DA SILVA E O RANCHO CRIOULO

Primeiras prendas do Rancho Crioulo


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O Centro Canoense de Tradições Rancho Crioulo, foi a primeira entidade tradicionalista criada em Canoas (6.6.1955) e uma das primeiras do Rio Grande do Sul a fazer parte do Movimento Tradicionalista. Antes dele surgiram o 35 CTG de Porto Alegre, fundado em 24 de abril de 1948;   Minuano CTG de Iraí,  fundado em 14 de março de 1949; CTG 93 de Bagé, fundado em 9 de setembro de 1952;  CTG Rincão da Lealdade de Caxias do Sul, fundado em  29 de outubro de 1953.
De um texto, cuja autoria nos é desconhecida, transcrevemos relato dos inícios do Rancho Crioulo:
“A ação preparatória para a fundação de um centro de tradições na cidade de Canoas, durou dois anos.  Nesse espaço de tempo, ou seja, a partir de 1953, o iniciador do movimento, Sr. João Palma da Silva, desenvolveu pessoalmente intensa campanha de divulgação, entre as classes sociais canoenses, do sentido e dos objetivos do tradicionalismo.
Foi uma campanha difícil, pois o assunto era ainda inteiramente novo em todo o Estado, e até sofria, na época, interpretações muito controvertidas.  Havia mesmo quem considerasse o Tradicionalismo nascente como um movimento separatista em incubação, afirmando que se procurava reeditar a revolução de 1935. Outros, ainda, afirmavam que o tradicionalismo não passava de uma palhaçada, inaugurada  por  fanáticos e saudosistas. Enfim, a incompreensão era quase geral, sobretudo numa cidade como Canoas, cuja população era imensamente heterogênea.
Durante sua campanha João Palma da Silva teve portas batidas no rosto, quando procurava difundir seu ideal.  Sabia ele que o tradicionalismo, como movimento cultural, não poderia ser dinamizado por pessoas incultas e sem trato social.  Por isto fazia questão de mobilizar, para a fundação de seu centro, pessoas em condições de compreender, pelo menos na generalidade, o sentido da obra projetada.  Sabia também que muita gente iria confundir o tradicionalismo que, sendo um movimento, implicava necessariamente,   em orientação intelectual, com o regionalismo que é apenas um estado mais ou menos emocional em relação aos costumes e vivências próprias do povo.  Não ignorava também a que perigos estaria sujeito o centro de tradições, se fosse invadido por pessoas sem cultura, embora amantes das motivações gauchescas.  Estas pessoas, além da confusão que fariam, se tornariam exacerbadas e, como tal, funestas, como acontece com os nacionalistas extremados.
De modo algum a tarefa se apresentava fácil. Entretanto, como contava com amigos intelectuais da Capital, prontos a auxiliá-lo, bem como já contava com o apoio  de alguns intelectuais de Canoas e pessoas instruídas, considerou chegada a ocasião.  Com o propósito de tranqüilizar a população civil de Canoas acerca da idéia apregoada, segundo a qual o tradicionalismo “era uma doida aventura separatista”,  cercou-se de um grupo  de companheiros de farda para a arrancada decisiva.  Sendo a Aeronáutica um órgão federal, obviamente não iria partir dali semelhante absurdo.  Dias antes da fundação do Centro, no alojamento da Companhia de Guardas, então comandada pelo major Geraldo Gilberto Ludwig, João Palma da Silva realizou, com Bolivar Madruga Duarte e o referido major, a reunião preparatória para a fundação.”
ATA DE FUNDAÇÃO DO CCT RANCHO CRIOULO
“Aos seis dias do mês de junho de mil novecentos e cinquenta e cinco , reuniram-se na sede do “Clube Gaúcho” os interessados na fundação de um centro de tradições que tomou o nome de “Rancho Crioulo” Centro Canoense de Tradições,  homenagem pelo nome tomado ao belo livro de poesias de João Palma da Silva, poeta e folclorista idealizador do movimento tradicionalista nesta cidade.  Aberta a sessão inaugural pelo Major Alberto Lopes Peres, este chamou para  constituir a mesa presidencial o Exmo. Sr. Prefeito Municipal Sady Fontoura Schwitz, o historiador e folclorista Walter Spalding e o jornalista e poeta Antônio Augusto Fagundes.  O Major Alberto Lopes Peres passou a palavra ao Prof. Walter Spalding, convidado a presidir a sessão inaugural. Ao assumir a presidência da mesa, o Prof. Walter Spalding dirigiu breves palavras à assistência,  interrogando sobre a proposição feita para que a fundação fosse nesta data presente.  Pela aquiescência unânime dos presentes, o Rancho Crioulo Centro Canoense de Tradições foi dado como oficialmente fundado.  E, por constar, eu, Bolivar Madruga Duarte, secretário Ad-hoc, lavrei a presente ata que vai por mim datada e assinada, com a aposição das assinaturas de todos os presentes. Canoas, 6 de junho de 1955. Aprovada: Walter Spalding.”
Assim , graças a uma campanha preparatória de dois anos, árdua e difícil, a fundação do Rancho Crioulo contou com a  presença de mais de oitenta pessoas, que foram os primeiros associados e fundadores.
PRIMEIRA DIRETORIA DO RANCHO CRIOULO
Encerrada a sessão de fundação, o presidente da Mesa, Prof. Walter Spalding, instalou uma sessão ordinária, na qual foi aclamada a diretoria sugerida em chapa única e que foi assim constituída: Presidente (Patrão) João Palma da Silva; Vice-Presidente (Capataz) Antônio Canabarro Tróis;  Secretários (Sota-Capataz)  Bolivar Madruga Duarte e Rubem Costa;  Tesoureiros (Agregados) Sady Ouriques Charão e Abelardo Rubim Filho.  Para o Conselho Fiscal (Vaqueanos) foram eleitos  os seguintes cidadãos: José João de Medeiros, Dr. Sezefredo Azambuja Vieira, Breno Costa, Major Geraldo Gilberto Ludwig, Dr. Tulio Medina Martins e Dr. Edson Medeiros.
Para os respectivos departamentos, foram escolhidas as seguintes pessoas:  História, Dr. Eugênio Carneiro; Folclore,  João Canabarro Tróis;  Artes, Professora Ondina Flores Soares; Social, Professora Jacy Vargas; Museu e Biblioteca, Professora Sara Del Cueto Reis;  Campeira, Alcebíades Machado.
Com um mês de Existência, o Centro aumentava em várias dezenas o seu número de associados, vindo a realizar a 6 de julho uma assembléia para a aprovação definitiva dos Estatutos.  Foi nesta Assembléia que um sócio, Sr. Derocy, certamente levado pelo entusiasmo, propôs, sob espontâneo  e caloroso aplauso da assembléia, que os membros do Rancho Crioulo sempre que se reunissem em sessões “vestissem os trajes característicos do gaúcho.”
Ora,  João Palma da Silva, evitara mesmo de dar ao seu “Centro” a designação  de centro de tradições gaúchas (CTG),  como para indicar que o Rancho Crioulo não se destinava a reviver o  gauchismo, como já vinha acontecendo, mas ter apenas como pano de fundo a tradição para atividades mais amplas e culturais.  De uma palestra proferida por ele dias mais tarde, colhemos as seguintes definições que ainda hoje podem servir de forma a qualquer entidade tradicionalista:
“O Rancho Crioulo não foi criado para reviver o passado, mas para estudar o passado do Rio Grande e divulgar, pela arte (cinema , teatro, artes plásticas, apresentações artísticas, outras), e pela palavra escrita ou falada (publicações, conferências ou palestras), aqueles aspectos da tradição gaúcha que possam  contribuir para o melhoramento da sociedade. E, como é óbvio,  considerando que a sociedade está em perpétua evolução.  Para o Rancho Crioulo, ao contrário do que acontece à maioria dos CTGs  a  idéia nuclear  do Tradicionalismo não está no tosco peão de estância à moda como geralmente é retratado, um tipo sem rumo no tempo e no espaço, mas transfigurado no “Monarca das Coxilhas”, amante da liberdade, sim, mas de domicílio certo, cujas principais qualidades estão no caráter moral.
Não é traje gauchesco, nem a cópia servil ao modo de ser do rústico peão de estância, com suas expressões bárbaras e atitudes grotescas que devem caracterizar o tradicionalismo.   Cumpre compreender que quando poetas e escritores empregam na sua arte termos e modismos gauchescos, eles fazem regionalismo apenas e não tradicionalismo.  Das qualidades de tais obras de arte é que depende a sua maior ou menor importância para o tradicionalismo.  Assim, o valor do poemeto “Antônio Chimango”, de Ramiro Barcelos, consiste na fidelidade com que descreve uma fase da vida pastoril do Rio Grande.  E é o valor, pois, do poemeto, que o torna do interesse do tradicionalista.  Outro tanto se pode dizer da obra de João Simões Lopes Neto.  Entretanto, seria rematada tolice,  e até quixotismo, face ao progresso moderno, se se quisesse hoje, mesmo no âmbito de centros de tradições a não ser como manifestação de arte, cultura ou recreação, reproduzir vivências descritas por Ramiro Barcelos e João Simões Lopes Neto. 
Sendo o tradicionalismo um movimento, implica em ter direção cultural, normas corretas para a dinamização de suas atividades.  Não pode, evidentemente, ficar ao sabor de um regionalismo saudosista, que pretende ridiculamente reviver “coisas idas e vividas.” Ao contrário disto o movimento terá ação negativa, vindo a caracterizar-se pela vulgaridade e acabando por cair no repúdio popular. Mesmo nas recreações deve haver comedimento e moderação.
O Rancho Crioulo, centro que pretende ser modelar, deve manter as seguintes normas,  atendendo à época e às condições da sociedade onde vive:
a) – Apenas em apresentações artísticas deverá ser obrigatório o uso de traje gaúcho, bem como nos desfiles a cavalo, isto para os participantes de tais atividades.  Nota: no caso de apresentações folclóricas de outras regiões do Brasil ou de outros países, como Espanha, Portugal, Alemanha, etc., os trajes deverão ser os correspondentes. Tais apresentações artísticas, no centro e fora dele, serão feitas como exibição de teatro, e não com a vulgaridade da vida ordinária.
b) – Nos bailes, as danças serão animadas por música de todo o Brasil, antigas e modernas, desde que ultrapassadas de 15 a 20 anos.  Isto constituirá uma recreação agradável para pessoas de todas as idades, sobretudo para as mais velhas.  O traje para estes bailes deverá ser exclusivamente de passeio. O Rancho Crioulo poderá promover mais as seguintes recreações: Fandangos, com músicas e trajes exclusivamente à gaúcha, só podendo participar das danças sócios trajados à caráter.  Bailes de Carnaval, com fantasia ou não e animados por músicas consideradas ultrapassadas de 15 a 20 anos, pelo menos (carnaval antigo).  Bailes juninos, a estilo caipira, evitando rigorosamente fantasias ou detalhes que choquem pelo mau gosto, como escovas de dente no bolso e coisas assim.
c) – Os desfiles a cavalo só poderão ser feitos dentro de rigoroso critério, com seleção de cavaleiros e montarias, e com um número nunca inferior a trinta campeiros montados, com clarim e bandeiras à frente.  Fora dessas condições é preferível não realizar nenhum desfile.
d) – A ornamentação do salão de festas deve ser rigorosamente à gaúcha, bem como a decoração de todo o ambiente, tudo em estilo artístico.
e) – Os requisitos essenciais e indispensáveis para  integrar o quadro social do Rancho Crioulo, são:  Dignidade moral pública e privada, espírito de cordialidade, de fraternidade e de convivência social. Estas são as tradições gaúchas que importam manter pelo tempo a fora, muito mais importantes que o uso da bombacha ou expressões chulas acaso usadas nos galpões.”
Com esta clara noção equilibrada do sentido de um autêntico tradicionalismo, figurado não apenas na idéia nuclear do centauro dos pampas, mas especialmente na dignidade e caráter moral nele manifesto, João Palma da Silva conclui que o elemento tradição deve servir de fundamento cultural à moderna sociedade rio-grandense, e isto, no que a tradição  tem de sopro espiritual do passado.
Não  diz ele que o tradicionalismo, mesmo como vem sendo processado, haja deixado de operar positivamente.  Mas afirma que as contrafações tem comprometido e desacreditado de tal modo o movimento, que este só se poderá salvar mediante um vigoroso pretexto lançado em congresso.  Ou então que cada centro, que possa contar com liderança intelectual, acabe encontrando isoladamente o melhor caminho.

Segue uma seqüência de fotos tiradas durante a 1ª Ronda Crioula do Rancho, ainda em 1955,  recentemente descobertas, gentilmente cedidas pelo amigo,  jornalista e pesquisador, José Luis Biulchi de Souza.







João Palma da Silva, Padre Leão Hartmann e José João de Medeiros


João Palma da Silva e José João de Medeiros







Ver neste blog  mais informações sobre "João Palma da Silva", 
onde consta sua biografia e bibliografia.











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