sexta-feira, 25 de julho de 2014



Canoas também teve seus mitos e lendas

Mito - provem do latim “mythus” e do grego “mythos” (fábula). Narrativa dos tempos fabulosos e heróicos. Narrativa de significação simbólica, geralmente ligada a cosmogonia e referente a deuses encarnadores das forças da natureza e/ou de aspectos da condição humana. Representação de fatos ou personagens reais exagerada pela imaginação popular, pela tradição.
Basilio de Magalhães define o mito como “transfiguração dos seres e fenômenos naturais em corpos inaturais e forças sobrenaturais.” É de opinião que do mito se originam as lendas.
Luiz da Câmara Cascudo considera o mito como “um sistema de lendas  gravitando ao redor de um tema central com área geográfica mais ampla e sem exigências de fixação no tempo e no espaço.”
Lenda - provem do latim “legenda”.Narrativa de acontecimentos fantásticos, tradição popular, conto, história fabulosa, mentira, invenção.  Narração escrita ou oral, de caráter maravilhoso, em que os fatos históricos são deformados pela imaginação do povo ou de poetas.
Luiz da Câmara Cascudo considera a lenda como “um episódio heróico ou sentimental com elemento maravilhoso ou sobre-humano, transmitido e conservado na tradição oral popular, localizável no espaço e no tempo.”
A lenda apresenta as seguintes características: oralidade, antiguidade, persistência e anonimato.
Encontra maior circulação no meio rural. Geralmente, ao redor dos fogões, surgem os contadores de “causos”. No passado os andarengos, os tropeiros e os carreteiros, cujas atividades ambulantes facilitavam o recolhimento destes fatos folclóricos,  foram  os seus maiores divulgadores.

Origem lendária do nome de Canoas:
Segundo uma tradição muito antiga que foi contada ao historiador Walter Spalding pelo canoense Guilherme Schell,  a  origem do nome de Canoas provem da palavra “canuera” – local onde os índios tapes faziam os sepultamentos de seus mortos.
O escritor de “A Divina Pastora” e “O Corsário”, Antônio José do Vale e Caldre e Fião, confirma em seu “Ibicui-retã”, publicado  na Revista do Partenon Literário, de 1873, que o termo “canuera” tinha o significado de “lugar dos mortos, cemitério”.
 Com o correr dos anos o nome foi se deturpando e “canuera” transformou-se em canoa, depois Canoas.
Esta é mais uma versão para a origem do nome de Canoas, que esteve até pouco tempo envolta em mistérios. Mas graças as pesquisas que fez o historiador João Palma da Silva para elaborar a obra “As Origens de Canoas”, depois de muito debater-se para identificar a origem do nome de Canoas, descobriu por informações de alguns antigos canoenses, a verdadeira história. Tudo teve início com a derrubada de grandes árvores para abrir caminho à estrada de ferro  que deveria passar por onde hoje é o centro de Canoas. O proprietário das terras e mato, Major Vicente Ferrer da Silva Freire, morador as margens do Rio dos Sinos, determinou  a seus funcionários (ex-escravos do Major) que fossem aproveitar as madeiras cortadas para o fabrico de canoas, que deveriam ser utilizadas no transporte de mercadorias no rio, único caminho até então disponível para a comunicação entre Porto Alegre e a colônia de  São Leopoldo. Quatro irmãos índios, Antônio, Elias, José e Sebastião Corrêa, segundo Palma da Silva em depoimento de Castorina Lima Silveira, executaram a tarefa.
Castorina conheceu os irmãos Corrêa, “eram carpinteiros da ribeira, de serviços brutos. Tocavam gaita e o “tio” José até fazia gaitas de foles. Eram das nossas relações, sendo o “tio” Elias compadre da minha mãe. Eram dos ex-escravos do Major Vicente Freire, sendo bem velhos já ao meu tempo de mocinha. O último a morrer foi o “tio” José, o gaiteiro. O Antônio era chamado Antonicão, por ser alto. O Sebastião casou uma filha com o Militão, e uma filha deste viveu em Canoas.”
Com a construção de uma estação ferroviária no local, esta ficou conhecida por muito tempo, Estação das Canoas.

Mitos que circularam por Canoas:
 Vamos citar alguns que tiveram seus nomes registrados pela história por suas realizações e exemplos. Sebastião Coelho; Marisa Ficagna; os fantasmas da Santos Ferreira.

Sebastião Coelho

Sebastião Coelho foi batizado na cidade de Torres em 23 de janeiro de 1858 e faleceu na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, em 4 de maio de 1958.
Uma crônica da época assinada por R.I.P. diz o seguinte: “Faleceu o crioulo velho, o seu Bastião, que morava nos fundos da Igreja de São Luiz, de Canoas.  Não se apartava do templo nem de dia, nem de noite. Diariamente assistia à Santa Missa e comungava. Assim fazia, porque a Sagrada Comunhão era a sua força. Dizia ele que Ela o ajudava a gostar mais de Deus e do trabalho.  Nas quartas e sextas-feiras da Quaresma só tomava pão e água. Aos domingos, quebrava o jejum só depois da última missa. Causava-lhe muita tristeza que tantas pessoas, principalmente de sua cor, freqüentavam o espiritismo e a umbanda. Não sabia ler, nem  escrever. Só sabia amar Nosso Senhor. Trabalhava sempre de graça, vivendo do que lhe davam, mas só aceitava o necessário. Morava sozinho numa pobre choupana, onde ele mesmo cozinhava, até que as R.R. Irmãs do Colégio Maria Auxiliadora lhe mandavam a comida. Não se sabe quando nasceu. Só consta o dia do seu batizado. Realmente, viveu mais para o céu do que para a terra.”
João Palma da Silva dedicou-lhe uma de suas crônicas do Correio do Povo de Porto Alegre, que intitulou “Recordando um Santo”.
O padre Pedro Luiz Botari publicou um livro sobre  Bastião, cujo título é “O Diamante Negro de Canoas ou Tio Bastião Coelho”, editado em 1964. Igualmente, há um texto, ainda inédito, de Inês Charlier Aklert – “Bastião, um santo popular em Canoas”.  Trabalho de conclusão do Curso de Especialização em Folclore, da Faculdade de Música Palestrina de Porto Alegre – FAMUPA.



Sebastião Coelho tem lugar certo na história da fé católica em Canoas.  Seu corpo está sepultado no cemitério mais antigo de Canoas. Seu túmulo é muito concorrido. Inúmeras pessoas vão depositar flores o ano todo, especialmente no dia de  finados, em agradecimento por graças alcançadas.  A fama de “santidade” de Sebastião vai longe, devotos tem publicado agradecimentos por graças alcançadas, em jornais da capital.

Marisa Ficagna

Marisa Ficagna, jovem assassinada a tiros em 21 de abril de 1964 pelo noivo, em frente a sua residência. O crime teve repercussão na cidade de Canoas, pois era aluna do Colégio Maria auxiliadora e filha do proprietário da Fábrica de Acordeões Cila Ltda., do Bairro Niterói.
O seu túmulo, no cemitério Santo Antônio, está coberto de placas agradecendo graças divinas alcançadas.  Também é grande o número de pessoas que rezam em frente à sua sepultura, principalmente no dia de finados.
Segundo se conta, Marisa, que morreu com 17 anos de idade, tempos depois apareceu a uma tia dizendo que seu corpo não havia entrado em processo de decomposição.  A tia foi ao cemitério e confirmou-se a afirmação.  A partir daí teve início a “lenda” e seu  túmulo é muito visitado por pessoas que rezam agradecendo e/ou pedindo graças.

Os Fantasmas da Santos Ferreira

Os fantasmas da Santos Ferreira – Próximo ao nº 3200 da Av. Santos Ferreira, vivia um casal de velhos, ainda no início do século XX. Diz a crença popular que numa noite a velha matou seu marido e jogou o corpo em um poço. De tempos em tempos, dizem, o velho sai do poço à procura da velha.

Outra crença popular refere-se a uma noiva que tinha casamento marcado na Igreja Matriz de São Luiz Gonzaga. Seu noivo não apareceu, tendo a noiva aguardado por muitas horas frente ao altar.  Desesperada a noiva joga-se em um poço que se localizava frente ao Cemitério Municipal, na Chácara Barreto. Desde então, no mês de maio, muita gente jura ter visto uma bela moça vestida de noiva sair do poço em busca de um noivo.

quarta-feira, 25 de junho de 2014



CLARINDA DA COSTA SIQUEIRA (1818-1867)

Série: Poetas do Passado Rio-Grandense

Poetisa. Natural de Rio Grande, RS, onde nasceu a 26 de dezembro de 1818 e faleceu na mesma cidade em 27 de outubro de 1867.
Pouco se sabe sobre a biografia de Clarinda da Costa Siqueira. Seu único  livro, póstumo,  “Poesias”, (Pelotas, Livraria Americana, 1881). Contem, além das poesias da autora, uma  necrologia escrita por Antônio  Joaquim Caetano da Silva Junior e uma homenagem à autora, escrita por Carlos von Koseritz.  Fazem referência ao livro Guilhermino Cesar, Sacramento Blake, Mário Osório Magalhães e Rita Scmidt.
Clarinda foi engeitada por sua mãe e criada por Leonarda Joaquina  dos Passos e Maria das Dores Passos. Casou-se, aos 17 anos, com José da Costa Siqueira. No mesmo dia do casamento Clarinda caiu enferma gravemente, declara em sua necrologia Antônio Joaquim.  Também Koseritz refere-se à doença da poetisa, e nada mais se sabe sobre o assunto.
Nota – Colimério Leite de Faria Pinto escreveu – Traços biográficos de Clarinda da Costa Siqueira.  (ver Guilhermino Cesar, Hist. da Literatura do RS, p.311)
Bibliografia
BLAKE, Augusto Victorino Alves do Sacramento. Dicionário bibliographico brasileiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1900. Reimpressão fac-símile, 1970.
CÉSAR, Guilhermino. História da literatura do Rio Grande do Sul. (1773 – 1902). Porto Alegre: Globo, [s.d.]
MAGALHÃES, Mário Osório. Opulência e cultura na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul: um estudo sobre a história de Pelotas (1860-1890). Pelotas: EDUFPel, 1993.
MUZART, Zahide Lupinacci. Escritoras brasileiras do século XIX. Florianópolis: Mulheres, 2000.
Referências
*Cartas de Liberdade (Internet,  em PDF)
*Jornal Eco do Sul, 30 de outubro de 1857, nº 247, ano 13
*Jornal O Comercial, 27 de novembro de 1867, nº 273, ano 11


Propaganda do único livro publicado por Clarinda:  POESIAS - Pelotas:Liv. Americana, 1881
Grande parte de suas poesias encontram-se ainda esparsas em jornais e almanaques do século XIX.

A UM ATOR
Se a virtude não guia um gênio raro,
O vício ofusca do talento o brilho.
A virtude, unida ao gênio, o gênio eleva,
O vício, unido ao gênio, avilta e mata.
(Frederico Ernesto Estrella de Villeroy. Selecta Nacional ou trechos escolhidos de diversos autores nacionaes.  Pelotas:Livraria Americana, 1883, p.262.


SONETO 
Tristes sombras da noite, eu vos desejo!
Só no centro do vosso abismo escuro
É que acharei descanso o mais seguro.
É ele o único alivio que eu elejo.

Adiantar-me para vós é o que almejo;
Meditando em minha vida horas aturo,
Como um ente desgraçado me afiguro!
Só na morte é que o meu descanso vejo.

Porém não, cruel desgraça, não, não pares,
Podes ainda empregar a tirania
Nos mortais restos que de mim achares;
Podes ainda ultrajar-me a cinza fria,

Calcando-a bem aos pés, e então clamares:
<< Em tua vida assim eu te trazia! >>

 Feito de improviso, aos 14 anos de idade, em um jardim.
 (Do livro  de Clarinda - "Poesias", Pelotas:Livraria Americana, 1881.)


sábado, 7 de junho de 2014



LUIZ FELIPE SCOLARI (FELIPÃO) E O GRÊMIO SÃO CRISTÓVÃO


Sede social do Grêmio São Cristóvão situada na rua Mamoré, Bairro Igara, Canoas,RS




O Grêmio São Cristóvão foi fundado em 29 de outubro de 1959, no bairro Igara de Canoas. Em sua sede social a entidade promovia bailes para seus associados e a comunidade local. O nome do time foi posto em homenagem ao padroeiro da igreja São Cristóvão, situada no mesmo bairro Igara. O São Cristóvão permanece ainda hoje, porém, não tem mais a mesma expressão de anos anteriores.
 No clube São Cristóvão, como era conhecido, o adolescente Luiz Felipe participava de comportadas reuniões dançantes.  Não havia ainda um campo de futebol e a turma do São Cristóvão jogava bola em praças e campos baldios, até que Demétrio Machidonski, um taxista que trabalhava na capital gaúcha, ficou com pena dos guris e providenciou um uniforme na loja Cauduro. Era um jogo de camisetas azuis com duas listras verticais amarelas. Demétrio mandou colocar o distintivo do Grêmio São Cristóvão e o time passou a disputar campeonatos de várzea contra equipes de Canoas e adjacências.  
Luiz Felipe Solari fez parte do quadro de jogadores do São Cristóvão. Foi seu primeiro time. Jogava como zagueiro.
Natural de Passo Fundo, onde nasceu em 9 de novembro de 1948. Filho de Benjamim e de Cecy (Leda) Scolari.  Seus pais  mudaram-se para a cidade de Canoas, onde construíram residência no Bairro Igara.  Em Canoas já viviam tio Alcides e tio Alberto, que eram sócios de uma transportadora de Passo Fundo e possuía uma frota de caminhões-tanque. Em 1954, Alcides trocou Passo Fundo por Canoas, para expandir seus negócios.  Um ano depois, Alberto o acompanhou.  Compraram um terreno à beira da BR 116, movimentada rodovia que corta a cidade de Canoas, e começaram a construir um posto de gasolina, inaugurado em 1959.  Em 1964, eles chamaram Benjamim, que veio com  Leda,  e os filhos Luiz Felipe e Cleonice para Canoas. Cleuza, a irmã mais velha de Felipão, preferiu ficar. Tinha constituído família em Passo Fundo. Casada com Euclides Schneider, ela tem quatro filhos:  Darlan (preparador físico que trabalhou no Grêmio e no Cruzeiro, além de integrar a comissão técnica da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2002), Tarcísio, Elson e Delano. 
Em Canoas, Benjamin virou sócio dos irmãos na transportadora  de combustível, enquanto Leda costurava e fazia roupas para fora. Luiz Felipe tinha que ajudar no sustento da casa e passou a trabalhar  no posto de gasolina dos tios, enquanto estudava no curso técnico de contabilidade.
Assim era a rotina do jovem, até que conheceu Olga Pasinato,com 16 anos de idade,  filha do dono do hotel localizado em frente ao posto de gasolina dos tios. O casamento aconteceu nove anos depois, em 1973. Dos 17 aos 19 anos Luiz Felipe jogou no time de várzea de Canoas, enquanto acalentava o sonho de tornar-se jogador de futebol profissional.
Como profissional, Luiz Felipe jogou no Aimoré de São Leopoldo e no Futebol Clube Montenegro, da cidade de mesmo nome, depois foi para o Caxias e o Juventude, jogando sempre como zagueiro, posição na qual recebeu o título de melhor zagueiro do Campeonato Gaúcho de 1978, quando então jogava  pelo Caxias..



 
De pé a partir da esquerda: Adair, Demétrio Machidonski, Adelmo, Hilton, Luizão, Luiz Felipe Scolari (Felipão), Ilton Silva Mendonça, Fabrício, Darci e Tonho Pacheco.
Agachados a partir da esquerda: Antônio Bittencourt,  Demétrio Machidonki Filho, Nelson Dutra, Clóvis Rampon (Foguinho), Brivaldo (Peixinho), Luiz Carlos Fontella, Rui Fontella e Juarez Amaral da Silva.


Foto do ano de 1967.  A partir da esquerda, de pé:  Roberto Taylor, Telmo, José Rubens, Luiz Felipe Scolari (Felipão),  Luizão,  e Hilton.
Agachados, da esquerda:  Sérgio Potrich, Volmar, Nereu Rampon, Demétrio Machidonki Filho e Luiz Fontella. (Fotografia de Toninho Silva)



De pé, a partir da esquerda: Nivaldo, Luiz Santos, Luiz Felipe (Felipão), Carlinhos, Hilton, Roberto, Fabrício e  Darci T. de Moraes – diretor de futebol.
Agachados, a partir da esquerda: Demétrio Machidonski Filho, Clóvis Rampon, Volmar, Telmo e Julio.


Foto do ano de 1965, publicada no  jornal Diário de Canoas, edição dominical de 10 de março de 2002. A madrinha do time era Mariza Amaral da Silva.



Foto de 1967,  tirada no campo do São Cristóvão, hoje transformado no Centro Olímpico Municipal de Canoas. Na foto Luiz Felipe Scolari (Felipão), Hilton e agachado Volmar.

domingo, 25 de maio de 2014

  
PADRE PEDRO LUIS BOTTARI (1905-1983)

Série: Poetas do Passado Rio-Grandense

Foto extraída da revista Rainha
Natural de Vale Vêneto, Quarta Colônia,  à época pertencente ao Município de Santa Maria, RS, onde nasceu  a 29 de julho de 1905 e faleceu em Bagé, RS,  a 23 de agosto de 1983.  Sacerdote Palotino, poeta e jornalista. Foi pároco em Porto Alegre, Santa Maria, Canoas, Cruz Alta e Bagé.  Destacou-se por suas obras em homenagem à Virgem Maria, Mãe de Deus, iniciando pela Gruta de Lourdes, em Vale Vêneto, sua terra natal, e o monumento de Fátima, em Cruz Alta, duas obras por ele idealizadas e realizadas e hoje convertidas em dois lugares de romaria. Em 1972, Pe. Pedro Luis deu início em Bagé, a Rainha da Fronteira,  um monumento com o objetivo de construir logo um santuário  a Nossa Senhora Conquistadora, por considerá-la “a padroeira nata do Estado do Rio Grande do Sul”, já que foi ela a primeira santa que aqui se arrinconou.   

Foto extraída da revista Rainha
A Imagem da Conquistadora foi  trazida pelo Pe. Roque Gonzales de Santa Cruz, o primeiro jesuíta a pisar terras do Rio Grande e aqui celebrar a primeira missa na Redução de São Nicolau, por ele fundada a 3 de maio de 1626, e a levou consigo em uma canoa, num percurso de 50 léguas pelo Rio Ibicuí e lhe pôs aquele nome porque convertia e conquistava os índios.

Padre Pedro Luis publicou artigos sobre assuntos religiosos com o pseudônimo de Aimone Sarmento,  em jornais católicos. Publicou “Crônicas do Paraná”, coluna periódica no Correio do Povo de Porto Alegre, a partir de 1962. Um nome bem conhecido nos meios literários sul-rio-grandenses por seus versos de uma inspiração condoreira e de uma perfeição parnasiana. Como poeta regionalista se destacou, juntamente com outros sacerdotes – Padre Paulo Aripe (Potrilho do Alegrete); Padre Fredolin Brauner;  Dom Luiz Felipe de Nadal  - publicando em livros e na imprensa gaúcha seus poemas, contos e crônicas.  Muitos de seus trabalhos ainda jazem em periódicos, distantes do acesso fácil dos leitores.
Foto da capa da 1ª edição, de 1964

Bibliografia:

Maria Teresinha Wang. Santa Maria:  Palotti;  Mina de ouro. Santa Maria: Palotti;  Modelo de mãe ou vida da Beata Ana Maria Taigi. Santa Maria: Palotti, 1933; Mãe Preta. Poema. Jornal “A Ofensiva”, Rio de Janeiro, 1936;  Catiabá. Poema. “Jornal do Dia”, Porto Alegre, 1949;  Cabiúna. Poemas. Porto Alegre, 1950; O monumento. Poemas. Porto Alegre, 1951; Sonetos do pampa. Santa Maria, 1963; O diamante negro de Canoas ou Tio Bastião Coelho. Biografia. Canoas: Hilgert, 1964. 86p. Duas edições foram publicadas, todas hoje muito raras;  Padre Caetano Pagliuca.   Biografia. In “Revista do IHGSM”, Santa Maria,  n.2, jul. 1964;  Crônica da província. In ”Revista Eclesiástica Brasileira”, Petrópolis, RJ, v.28, fasc.2, jun. 1968; A virgem crioula. Crônica histórica. In “Correio do Povo”, Porto Alegre, 05  jan. 1969;  A face de Deus no Cosmos.  Crônica. In “Correio do Povo”,  Porto Alegre, 22 fev. 1969;  A capital mundial da loucura. In “Correio do Povo”,  Porto Alegre, 04 mar. 1969; Visitei a família do Padre Reus.  In revista “Notícias para os nossos amigos”, Porto Alegre, n.106, jul. 1970; Em Caaró o sangue se fez luz. In revista “Rainha”, Santa Maria, n.667,  nov. 1978; Conquistadora: a madrinha crioula do gaúcho. In  revista “Rainha”, Santa Maria, n.661, maio 1978; O gênio do pampa. Poema cíclico gauchesco. 1ª Ed., Santa Maria: Palotti, 1958.  Desse poema foram publicadas três  edições. É a obra que ainda pode ser encontrada com certa facilidade nos sebos da capital.
Foto da capa da 1ª edição, de 1958

domingo, 11 de maio de 2014





RAUL  SOTERO  DE SOUZA (1892-1972)

Série:  Poetas do Passado Rio-Grandense


Foto de autor desconhecido


Há muitos anos ouvi meu pai falar de um poeta e trovador repentista que andava pelas emissoras de rádio de Santa Maria, RS, e cidades vizinhas – Jaguari,  São Vicente, Mata, São Pedro do Sul e outras. E que havia escrito um livro de poesias gaúchas. Seu nome: Raul Sotero de Souza. Isto ficou guardado em minha memória. Anos mais tarde li esse nome em um livro sobre o cantor e trovador Gildo de Freitas, que despertou meu interesse em buscar informações sobre o poeta. A pesquisa não avançou muito.
Raul Sotero de Souza foi poeta, gaiteiro e trovador repentista, natural de  São Gabriel, RS, onde nasceu em 1892 e faleceu em Santa Maria, RS, em 1972. Publicou os livros “Desperta, Rio Grande”, prosa e verso, Santa Maria:Editora Pallotti, 1962; “Inspiração de um gaúcho”, versos regionalistas.
Segundo o Guia do Folclore Gaúcho, de Augusto Meyer, Raul Sotero compôs um ABC sobre pelos de cavalos. Fomos buscar o texto indicado por Augusto Meyer no livro “Dicionário Enciclopédico do Rio Grande do Sul, organizado por Aurelio Porto, onde consta o ABC sobre pelos de cavalos, recolhido pelo historiador Walter Spalding:
“ABC – (populário) – Poesia popular, comum a todo o Brasil, mas muito usada e de modo particular, no Rio Grande do Sul.  No Norte do Brasil seu fim principal é o amor. No Rio Grande do Sul, a vida campeira, a vida heróica, o cavalo, entremeado, as vezes, por sentimentos amorosos. Essas poesias, geralmente quadras setesílabas, tem também o nome de ABECEDÁRIO.  Cada estrofe deve começar por uma letra  do alfabeto. São, no geral, simples canções, outras, cartas a amigos. Cezimbra Jacques em seu “Assuntos do Rio Grande do Sul”, transcreve o “Abecedário da moçada da coxilha”, mas incompleto, somente até a letra O.  Simões Lopes Neto  também transcreve esse tipo de poesia popular em seu “Cancioneiro Guasca.”  São, no geral, poesias mal feitas, como a poesia do povo.   Raul Sotero, poeta popular de São Gabriel, escreveu o seguinte ABC, precedido de uma explicação em verso, para o Sr. Alfredo Faria:
“Senhor Alfredo Faria,
para seu lado vou eu
em busca de um cavalinho
que o senhor me prometeu,
e pelo tempo que faz
decerto já se esqueceu.

E como promessa é dívida
o senhor tenha paciência;
mas peço me desculpar
eu estar com exigência,
pois dizem que Deus ajuda
a quem faz a diligência.

Assim lhe mando estes versos
para não mais esquecer,
que neles também lhe peço
pensar o que vai fazer.
Em prova de gratidão
vou mandar-lhe um ABC.

No ABC que lhe mando,
nas mesmas letras declaro,
em qualquer qüera não ando:
o meu gosto é muito raro.
Mas dos pelos que eu explico,
Aceito, creia, meu caro.

Alazão é pelo lindo !
si eu pudesse merecer
por ser a primeira letra
deste mimoso ABC.

Baio também me agradava,
si vós quizesseis me dar.
Si não tiver por quem mando,
eu mesmo vou lá buscar.

Colorado, gosto muito
por ser um pelo decente;
mesmo rosilho prateado
me deixaria contente.

Doradilho também serve;
é pelo que já gostei.
também num zaino bragado
muita carreira ganhei.

Entrepelado, que lindo
por ser um pelo exquisito;
eu aceitava me rindo
porque sempre achei bonito.

Fazendo os versos que mando,
talvez tenha algum engano:
estava agora pensando
que pode ser um tubiano.

Gateado é pelo bem maula,
mas  não quero pra carreira;
dá pra defender a pátria,
pra salvação da bandeira.

Há ! que saudades que tenho
do meu rosilho tostado !
De rédea, era uma balança !
Cortava por qualquer lado.

Iscuro, me dá saudades
do tempo de minha infância:
era o que mais eu zelava,
era o melhor lá da estância.

Já que trato deste assunto,
desejo sair servido:
mesmo azulejo ou bragado,
não tenho o tempo perdido.

Cavalo branco é azar,
para os dias de trovoada:
como sou muito devoto,
não tenho má fé de nada.

Lubuno na cancha é maula,
mas no rodeio já presta.
Si assim ganhar, me contento:
sete consolo me resta.

Mouro é sempre garantido
num pelado de rodeio.
Também ovêro rosado
é pelo que não odeio.

No que receba estes versos
feitos de tão boa fé,
deveis lembrar que um gaúcho
é triste viver a pé.

Oh ! que saudades que tenho
de um malacara que eu tinha,
das quatro patinhas brancas,
presente de uma madrinha.

Picaço é pelo macaco
de cavalo caborteiro;
mas se ganhar, me contento,
por não me custar dinheiro.

Que estes versos vão cair
nas mãos de muito boa gente,
que um pingo dado de gosto
quem ganha fica contente.

Ruano é pelo de gosto
por ele tenho paixão;
para apartar um rodeio
num dia de marcação.

Salino é pelo mui raro
que só por sorte da gente;
ovêro-chita e bragado
si ganho fico contente.

Tordilho no rio é peixe;
tostado é bom mas não tanto;
pampa de todos os pelos
também me serve, garanto.

Uma história bem escrita
a um homem de educação,
dá pra avaliar os poderes
da força da inclinação.

Vermelho de campo é um raio;
melado é fraco e traiçoeiro;
mas este mesmo eu aceito
por não me custar dinheiro.

Xará, só mesmo um acaso,
ou por ventura no mundo,
somente o pelo é remisso
que não alisa um segundo.

Zaino, vai por despedida,
com ele termino os versos;
que não se esqueça de mim
mais uma vez eu lhe peço.



Há referências ao poeta no livro “Gildo de Freitas” de Juarez Fonseca, Tchê, Comunicações Ltda., 1985, p. 47, o qual veio a cidade de Canoas trazer informações à dona Carminha, esposa de Gildo, que há muito não vinha em casa e nem mandava  notícias. “... eu vim aqui te dizer que era eu que te mandava dinheiro. Fazia os shows do Gildo e sempre tirava um pouco e mandava para ti. Então eu quero te avisar que o Gildo foi embora para outro lugar, e não sei notícias dele. Porisso tu não deves mais contar comigo.”
Raul Sotero participou, como trovador repentista, no “Grande Rodeio Coringa”, famoso programa da Rádio Farroupilha de Porto Alegre, apresentado por Darcy Fagundes e Luiz Menezes, que ia ao ar todos os domingos a noite.  No programa desfilavam outros grandes repentistas – Inácio Cardoso, Teréco Oliveira, Genésio Barreto, Luiz Müller, Portela Delavi, Garoto de Ouro, Preto Limão e Gildo de Freitas.

No festival de música nativista “1º Flete da Canção Gaúcha”, do município de Santa Margarida do Sul, foi criado, em homenagem ao poeta e trovador, o troféu Raul Sotero para a modalidade  melhor intérprete de música do festival.



Décima escrita por Raul Sotero (?)

Segundo Jorge Telles de Oliveira, em seu blog, diz: “Sobre o finado Talco (Tarquino Cardoso), fui vizinho em Rosário do Sul de uma  irmã dele, que também já faleceu, a amiga Geni, que foi quem me deu a décima em que não aparece o autor mas, segundo o estilo da lavra ela é imputada, isto sem confirmação oficial, ao famoso versejador e poeta Raul Sotero de Sousa, natural do município de Lavras do Sul.”