sábado, 14 de abril de 2018




BOLEADEIRAS
Entre tantos outros temas ligados ao gaúcho, que divulguei pela internet, ofereço mais este aos amigos. Meu interesse é fazer conhecida e vulgarizada nossa rica cultura terrunha.
Há mais de 12.000 anos chegaram os primeiros povos indígenas ao território pampeano e aqui construíram suas habitações e seus instrumentos  para suprir a alimentação, que era a base de coleta de frutas, raízes, peixes e todo tipo de caça. Para tanto, desenvolveram instrumentos que facilitaram a vida difícil daqueles tempos imemoriais.  Pontas de projéteis que constituíam os dardos, lanças e flechas, e também as boleadeiras. Eram bolas redondas ou ovóides, lisas ou com um sulco, ou ainda, com pontas. Os pampeanos usaram dois tipos bem diferentes de boleadeiras, de uma e duas bolas. A de três bolas foi construída pelos primeiros gaúchos. A boleadeira, uma espécie de funda, foi também uma arma muito utilizada pelo gaúcho para caçar nas grandes pradarias do pampa Riograndense, Uruguai e Argentina. A boleadeira é composta de bolas metálicas ou pedras arredondadas amarradas entre si por cordas tendo em cada uma das extremidades uma das bolas.

Lançadas girando sobre si, elas vão ao encontro do alvo, geralmente as pernas de um animal quadrúpede, que leva um tombo na hora, ficando imobilizado. Usada normalmente na captura do gado na campanha, as boleadeiras também foram mais tarde utilizadas na guerra.

A boleadeira é a herança que as tribos da região do Plata deixaram aos gaúchos. Arma característica dos índios Guaranis, Charruas, Minuanos e outros que viviam nos pampas, quando aqui chegaram os primeiros europeus. Entre todos os utensílios de caça e/ou armas utilizados pelos gaúchos, nenhum é mais característico e mais peculiar que a boleadeira.
Os espanhóis, e os europeus em geral, desconheciam totalmente o uso da boleadeira ao iniciar a conquista do continente americano.




TRÊS MARIAS - Jayme Caetano Braun

 Velha relíquia gaúcha, De pedras acolheradas, Três chinocas encapadas, Que rasgando um mundo novo, Perpetuaram no retovo, E nas cordas resistentes, As três raças diferentes, Que formaram nosso povo.
Retovada em couro bruto, Nas tabas e tolderias, Nascestes das correrias, De charruas e minuanos, Até que os rudes paisanos, Aprenderam a manejar-te, Te fizeram nobre parte, Dos apetrechos pampeanos. 
Daí  seguiste andarenga, A evolução campesina, Nas lutas da Cisplatina, Nas invasões espanholas, Onde caudilhos pacholas, No fragor das tropelias, Te chamaram Três Marias, Boleadeiras ou par de bolas.
Diz a lenda- que um cacique, Ao voltar de uma peleia, Vendo perto a lua cheia, Que se destapava inteira, Na ingenuidade  campeira, Da superstição charrua, Resolveu domar a lua E atirou-lhe a boleadeira.
Desde então- no céu do pago, Daquelas pedras bravias, Surgiram as Três Marias, No meio dum fogaréu,  tropereando a lo léo, Sempre no rastro da lua, A boleadeira charrua, Nunca mais voltou do céu. 
Essa é a lenda – Mas a história, Desse traste de galpão, É a da própria tradição, Das três pátrias campechanas, As três Querências Hermanas, Traços do mesmo debuxo, Que moldaram o gaúcho, Nas pampas americanas. 
Boleadeira de uma pedra, E mais adeante, de duas, Três Marias dos Charruas, Dos andejos e teatinos, Riograndenses e Platinos, Centauros da mesma glória, Que amanheceram, na história, Boleando os mesmos destinos.
Boleadeira do Rio Grande, Que recebemos de herança, Volto aos tempos de criança, E até lágrimas enxugo,
Tropeio- Aparto- Refugo, Na sombra do arvoredo, Onde conheci o segredo, Das três pedras de sabugo. 
Muitas vezes te larguei. Saindo meio de enfiada, No rei pastor da manada, Bem sobre o meio da cruz, Ou num lombo de avestruz. Desses que sai corcoveando, Pra rodar se desasando, Num campo de tacurus.
Mas hoje- eu compreendo, ao ver-te, Dependurada num gancho, Olhando a porta do rancho, E ouvindo o berro dos bois, Que já não temos depois, Chegamos ao fim da lida: -Boleamos tanto na vida e a vida boleou nós dois.
Foto do acervo de Dari Simi

Índios charruas levados a Paris em 1823.
Desenho de Paul Rivet

Boleando ñandus (emas). 
Aquarela de A. Durand, 1866.



Índios charruas civilizados, peões. 
De Jean Baptiste Debret















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